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A cultura é o gargalo que a tecnologia não resolve

Investir mais em IA sem mudar a cultura organizacional é o jeito mais caro de ficar no mesmo lugar

Dorian Lacerda
Um dos fundadores da Abranet, autor do livro: "Inteligência Conectada"
19 de outubro de 2026
A cultura é o gargalo que a tecnologia não resolve

Toda empresa que investiu em IA nos últimos três anos tem uma régua pronta para medir o retorno: quanto se gastou, quantos pilotos rodaram, quantas licenças foram compradas. Poucas têm uma régua para medir a variável que, segundo os dados mais recentes, decide se esse investimento vira resultado ou vira prejuízo arquivado: a cultura da própria organização.

O relatório 2026 Global Human Capital Trends, da Deloitte,  mais de 9 mil líderes ouvidos em 89 países, traz um número que deveria estar em toda apresentação de board sobre IA: 65% das organizações acreditam que sua cultura precisa mudar significativamente por causa da IA, e 34% dizem que a cultura hoje inibe ativamente suas metas de IA. 

Mais grave: 85% consideram crítico desenvolver capacidade de adaptação, mas apenas 7% afirmam liderar bem nisso. Organizações que tratam a adoção como problema "technology-first" têm 1,6 vez mais chance de não atingir as metas de retorno.

O dado que separa estratégia de ferramenta

Se a Deloitte aponta o problema, o BCG mede o tamanho da lacuna entre quem tem estratégia e quem só tem ferramenta. Na quarta edição de sua pesquisa AI at Work, quase 12 mil trabalhadores em 14 mercados, 74% dos funcionários de linha de frente já usam IA regularmente, alta de mais de 20 pontos percentuais em dois anos. Isso já não é mais hipótese de adoção. É fato consumado.

O que diferencia quem ganha com isso de quem só gasta é outra coisa: uma estratégia clara de uso eleva o impacto da IA em 25 pontos percentuais. Melhores ferramentas elevam esse mesmo impacto em apenas 5 pontos. 

A diferença não é sutil, é de ordem de grandeza, e ela está exatamente onde a maioria dos conselhos não olha: não na tecnologia escolhida, mas na clareza sobre o que fazer com ela.

Uma estratégia clara de uso de IA entrega cinco vezes mais impacto do que a melhor ferramenta do mercado. E estratégia não se compra, se constrói, dentro da cultura que já existe na empresa.

Há um segundo sinal no mesmo estudo que merece atenção de qualquer RH: 47% dos trabalhadores dizem passar mais tempo gerenciando e direcionando a IA do que efetivamente fazendo o trabalho. Não é ganho de produtividade automático, é uma nova camada de trabalho que, se não for desenhada deliberadamente, consome exatamente o tempo que a IA deveria liberar.

O "reality check" que todo mundo cita, poucos leem

O relatório The GenAI Divide, do MIT Project NANDA, tornou-se a estatística mais repetida de 2026: 95% das organizações obtêm retorno zero em seus investimentos de IA generativa, e apenas 5% dos pilotos integrados extraem valor real. 

O número é amplamente citado e, por isso mesmo, vale o cuidado de ler o que o próprio estudo aponta como causa: a diferença entre os 5% que funcionam e os 95% que não funcionam raramente é técnica. É a capacidade da organização de integrar a ferramenta ao fluxo de trabalho real, e não apenas de rodar um piloto isolado.

É o mesmo diagnóstico que aparece, com outras palavras, em analistas de transformação digital como Brian Harkin: organizações falham não por falta de tecnologia, mas porque toleram lideranças fracas, culturas tóxicas e estrutura de entrega ruim, e insistem em pressionar pessoas em vez de colocá-las no centro da mudança.

O retrato brasileiro

No Brasil, o padrão se confirma com nome e sobrenome. O Índice de Transformação Digital Brasil, da Fundação Dom Cabral em parceria com a PwC, mostra que 52,4% das empresas brasileiras ainda são "seletivas" na transformação digital, fazendo pequenos investimentos pontuais, contra apenas 22,3% classificadas como "visionárias". Entre as dez dimensões avaliadas pelo estudo, Inteligência Artificial (2,4 em 6) e Fronteira Tecnológica (2,3 em 6) têm as notas mais baixas.

E quando perguntadas o que impede a transformação digital de avançar, 55% das empresas apontam falta de estrutura e cultura frente à falta de experiência em projetos digitais (28%), falta de visão de modelo de negócio (21%) e aversão ao risco (20%). 

A própria conclusão do estudo é direta: "a cultura surge como principal desafio para avançar na transformação digital."


Onde isso aparece na prática: treinamento não é letramento

Um ponto que costuma se perder na pressa de "capacitar todo mundo em IA": treinar e letrar são coisas diferentes. Uma pesquisa da DataCamp com a YouGov mostra que 77% das empresas já oferecem algum treinamento em IA, mas apenas 21% relatam retornos significativos, número que sobe para 42% apenas nas organizações com programa de upskilling maduro e abrangente (e só 35% das empresas têm isso).

O treinamento ensina a mecânica de usar a ferramenta. Letramento é o julgamento sobre quando usá-la, quando desconfiar dela e quando a decisão ainda precisa ser humana. A diferença entre os dois números acima, 77% treinam, 21% colhem retorno  é exatamente o tamanho dessa lacuna de julgamento.

O que isso significa para quem está no board

  • Pare de medir adoção e comece a medir estratégia de uso. Quantos pilotos rodando ou quantas licenças compradas é a métrica errada, o BCG já provou que ela entrega um quinto do impacto de uma estratégia clara sobre o que fazer com a ferramenta.

  • Trate a cultura como responsabilidade de liderança, não de RH isolado. O próprio BCG descreve a transformação de IA como mandato de CEO, e identifica o RH, não a TI, como a área que de fato desbloqueia a maior parte do valor de uma transformação, porque é onde trabalho, papéis e cultura são redesenhados.

  • Diferencie treinamento de letramento no orçamento de capacitação. Se sua empresa está entre os 77% que treinam e não entre os poucos que colhem retorno, o problema não é a plataforma de ensino é a ausência de um programa estruturado de verdade.

  • Audite a "fadiga de mudança" antes de anunciar a próxima iniciativa. Dados da Deloitte mostram um terço dos trabalhadores passando por 15 grandes mudanças organizacionais no último ano e apenas 27% acreditando que a própria organização gerencia essas mudanças bem. Empilhar mais uma transformação sobre uma cultura já exausta tende a produzir resistência, não adoção.

Conclusão

Nenhum desses dados diz que a tecnologia não importa. Dizem outra coisa, mais incômoda para quem prefere resolver problemas comprando ferramenta: a tecnologia já chegou, a adoção já aconteceu, 74% da linha de frente já usa IA regularmente, e o gargalo migrou para o lugar que nenhum fornecedor vende pronto. 

A cultura não se atualiza com uma licença nova. Se atualiza com decisão de liderança, sustentada no tempo, sobre como as pessoas e a IA vão, de fato, trabalhar juntas. Quem continuar comprando tecnologia para resolver um problema de cultura vai seguir, em 2027, lendo a mesma estatística de retorno zero, só que com um orçamento maior gasto para confirmá-la.


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Coluna assinada. As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem necessariamente a posição institucional da Abranet — Associação Brasileira de Internet.