Inteligência Conectada não nasceu num só lugar: isso já é a resposta
Nunca tivemos tanto acesso à informação. E nunca foi tão desafiador transformá-la em clareza.
Talvez por isso uma expressão antiga tenha voltado à cena. Em dezembro de 2025, uma executiva da Cisco declarou que, em 2026, o local de trabalho não evoluiria por mais aplicativos ou assistentes digitais, mas por "Inteligência Conectada": pessoas, dados e agentes de IA atuando lado a lado.
Quase trinta anos antes, em 1997, Derrick de Kerckhove, então à frente do Programa McLuhan em Toronto, já usava a mesma expressão para descrever a soma da inteligência das pessoas conectadas em rede. No intervalo entre os dois, Pierre Lévy formulou a ideia de "inteligência coletiva". Três origens, três décadas de distância, o mesmo nome.
Isso não é coincidência de marketing. É o sintoma de uma pergunta que se acumula há tempo e que hoje atravessa ao mesmo tempo a academia, as big techs e o C-level brasileiro: se a tecnologia deixou de ser o gargalo, por que tanta capacidade ainda se transforma em tão pouca decisão melhor?
A tese
O termo está sendo redescoberto porque a infraestrutura finalmente alcançou o problema que ele sempre nomeou. Enquanto faltava capacidade computacional, "inteligência conectada" era teoria de comunicação, o campo de Kerckhove e Lévy. Enquanto faltava adoção, era promessa de fornecedor.
Agora que há capacidade e há adoção, fica visível o que nunca foi resolvido.
A palavra inteligência vem do latim intelligere: colher entre. Ela não mora nas coisas isoladas, mas na capacidade de relacioná-las, e é exatamente entre as coisas que as organizações estão perdendo inteligência.
Proponho olhar a organização por quatro inteligências: estratégica, organizacional, operacional e humana. Não são departamentos nem caixas de organograma. Estão presentes, ao mesmo tempo, em qualquer problema relevante, e cada uma enxerga a mesma decisão por um ângulo diferente.
O ponto central é este:
Uma organização pode ser competente em cada uma de suas partes e, ainda assim, perder inteligência nas passagens entre elas.
Conectar, portanto, não é apenas ligar sistemas, pessoas e agentes, é cuidar das passagens: dos critérios com que uma inteligência entrega à outra o que viu, e da disposição de olhar a mesma escolha por mais de uma perspectiva antes de agir.
O que os números mostram
A adoção não é mais hipótese. Na pesquisa global da McKinsey de novembro de 2025, 88% das organizações já usavam IA em ao menos uma função de negócio. Na edição de agosto de 2026, 80% dos respondentes afirmam que a IA melhorou sua produtividade individual.
A mesma edição de 2026 mostra o outro lado: apenas cerca de 6% das empresas atribuem à IA ganho relevante de resultado (5% ou mais do EBITDA), uma fatia que não se moveu em relação à pesquisa anterior.
Repare na distância entre os dois números. A IA funcionou na mesa de cada pessoa e não chegou ao resultado da empresa. A inteligência humana fez a sua parte; a estratégica não recebeu, não faltou ferramenta nem dado, faltou a passagem.
A própria McKinsey já havia indicado onde essa passagem trava, no estudo "Superagency in the workplace", de janeiro de 2025: os funcionários estão prontos; são os líderes que não conduzem a transformação na velocidade necessária.
Não é um problema de tecnologia, é um problema de como a organização escolhe.
O contraponto que não pode ser ignorado
Seria fácil escrever este artigo só com os números de adoção.
O rigor pede o contrário: o entusiasmo em torno de "inteligência conectada" tem contrapontos sérios, e alguns vêm de quem mais estuda o tema.
Uma meta-análise conduzida por pesquisadores ligados ao MIT Center for Collective Intelligence, publicada no fim de 2024 na Nature Human Behaviour, revisou centenas de experimentos e concluiu que, em média, combinações entre humanos e IA não superam o melhor dos dois atuando sozinho.
O detalhe que importa: a combinação tendeu a perder em tarefas de decisão, a ganhar em tarefas de criação, e funcionou melhor quando o humano já era bom no que fazia.
A Gartner, por sua vez, projeta que mais de 40% dos projetos de IA agêntica serão cancelados até o fim de 2027, por custos crescentes, valor de negócio pouco claro ou controle de risco inadequado, e um levantamento do MIT de 2025, de metodologia questionada mas amplamente citado, afirmou que 95% dos pilotos de IA generativa não geravam retorno financeiro mensurável.
A conclusão que tiro desses dados é precisão.
O estudo do MIT não diz que pessoas e máquinas não devem trabalhar juntas; diz que depende da tarefa, do contexto e de quem está na outra ponta.
E os três motivos da Gartner são, na prática, três inteligências que não conversaram antes de o projeto começar: a operacional, que deveria ter medido o custo; a estratégica, que deveria ter definido o valor; e a organizacional, que deveria ter sustentado o risco.
Conectar não garante inteligência, conexão sem critério pode custar mais do que rende.
A governança tem um papel nessa história, mas não como ponto de partida. Ela é a inteligência organizacional fazendo a sua parte: transformar boas escolhas em regras que deem continuidade ao que funciona. Sem critério antes dela, governança apenas formaliza o palpite.
O que isso significa para o Brasil
O padrão se repete por aqui: adoção acelerada, passagens frágeis. Levantamento da ABES com dados da IDC mostra que 40% das companhias brasileiras já investem em agentes de IA e outras 33% pretendem começar nos próximos doze meses; agentes e IA generativa são prioridade estratégica para 53% dos executivos consultados.
Os obstáculos que o próprio estudo aponta (qualidade de dados, sistemas legados, governança e escassez de profissionais qualificados) não são tecnológicos. Estão justamente nas passagens entre as quatro inteligências.
Dois casos nacionais ajudam a ver o outro lado, com a ressalva de que os números foram reportados pelas próprias empresas ou por seus fornecedores e ainda não foram auditados por terceiros.
A Localiza&Co relata ganho médio de 21% em produtividade no desenvolvimento de software com IA, dentro de um framework interno de "engenharia de valor" que prioriza projetos por critérios de negócio, testa antes de escalar e desenha a governança desde a origem.
O Itaú, com sua plataforma conversacional ia.i, relata resolutividade entre 20% e 30% maior em determinadas jornadas e redução de 75% no tempo de análise de documentação imobiliária, apoiada em um acervo de mais de 43 milhões de documentos jurídicos.
O que os dois casos têm em comum não é a tecnologia, é que ambos desenharam as passagens: a estratégia diz o que vale a pena, a operação prova, a organização sustenta e as pessoas dão sentido. A IA entrou num sistema de escolhas, em vez de ficar à espera de adoção espontânea.
31 anos vendo a mesma pergunta mudar de nome
Comecei minha trajetória conectando pessoas à internet, numa época em que "estar conectado" já era, por si, um resultado. Depois passei a conectar pessoas ao conhecimento, na educação corporativa, quando estar conectado deixou de bastar e a pergunta virou "conectado a quê, e para quê".
Hoje a pergunta mudou de novo. Não basta estar conectado ao que é útil, é preciso saber colher entre: escolher, dentre tudo o que a conexão oferece, o que merece virar decisão, e enxergar essa escolha pelas perspectivas que ela afeta.
Foi para isso que escrevi Inteligência Conectada, que chega em breve.
Não para propor mais um termo num campo que, como este panorama mostra, já tem origem em Kerckhove, em Lévy e agora nos fornecedores de tecnologia. Mas para oferecer o que faltou a essa genealogia: um modo de olhar a organização pelas quatro inteligências e, sobretudo, pelas passagens entre elas.
A implicação
Se a sua empresa já está entre as que usam IA em várias funções, ou entre os 40% de empresas brasileiras que já investem em agentes, a pergunta que vale levar para a próxima reunião de diretoria não é "quanta tecnologia adotamos".
Em breve, se já não aconteceu, haverá um agente sentado à mesa das suas decisões.
A pergunta passa a ser outra: em qual das passagens a sua organização está perdendo inteligência? E, quando o agente recomendar, quem ali continuará escolhendo?
O ponto de chegada desta obra não é a Inteligência Artificial, é a capacidade de continuar escolhendo.
Ressalva editorial: os números de Localiza e Itaú são autorreportados pelas empresas ou por seus fornecedores, sem auditoria independente identificada nas fontes consultadas.
A estimativa da Gartner é uma projeção, não um fato consumado, e o levantamento de 2025 do MIT sobre pilotos de IA generativa teve sua metodologia questionada; ambos devem ser lidos como tal.
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Fontes: Cisco Newsroom (dezembro de 2025); Derrick de Kerckhove, "Connected Intelligence" (1997); Pierre Lévy, "L'intelligence collective" (1994); McKinsey & Company, "The State of AI" (novembro de 2025) e "The State of AI in 2026: On the road to ROI" (agosto de 2026); McKinsey & Company, "Superagency in the Workplace" (janeiro de 2025); Vaccaro, Almaatouq e Malone, "When combinations of humans and AI are useful", Nature Human Behaviour (2024), MIT Center for Collective Intelligence; Gartner, comunicado à imprensa sobre IA agêntica (junho de 2025); MIT NANDA, "The GenAI Divide" (2025); ABES/IDC via Canaltech (setembro de 2026); Microsoft Source LATAM sobre Localiza&Co (março de 2026); TI Inside sobre Itaú ia.i (julho de 2026).
Pesquisa e revisão com apoio de inteligência artificial. A tese e o julgamento são do autor.
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