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Na Era da Pós-Inovação, criatividade não basta

Insights da palestra de Gil Giardelli no 6º Congresso Brasileiro de Internet — por que o diferencial não é a criatividade, mas a capacidade de gerar valor e executar.

Dorian Lacerda
CEO da NEXTCIA · Fundador da Abranet
22 de julho de 2026
Na Era da Pós-Inovação, criatividade não basta

O diferencial é quem consegue gerar valor e executar. A palestra de Gil Giardelli no 6º Congresso Brasileiro de Internet trouxe provocações legítimas sobre o fim de uma era. Mas entre a metáfora da bússola quântica e o otimismo do "3 empregos por 1", há perguntas que CEOs, conselhos e governos precisam responder com mais rigor — e menos hype.

O cenário que o congresso mostrou — e o que ele não explicou

Estive no 6º Congresso Brasileiro de Internet. Assisti à palestra de Gil Giardelli com a atenção que o tema merece.

A curadoria foi de alto nível, o palco estava à altura e o auditório reagiu como era de se esperar: com o misto de fascínio e vertigem que o tema da pós-inovação costuma provocar.

Dorian Lacerda no painel do 6º Congresso Brasileiro de Internet, ao lado de um robô humanoide da Abranet
No 6º Congresso Brasileiro de Internet, onde a pós-inovação saiu do slide para o palco.

Giardelli é um comunicador experiente e suas provocações têm valor real.

A metáfora da bússola quântica em lugar de mapas antigos captura algo verdadeiro sobre o momento que vivemos. Mas comunicação de palco e análise executiva são coisas diferentes — e é aqui que começa minha contribuição ao debate.

Onde concordo: o desaprendizado é real e urgente

A tese central de que modelos mentais do século XX não servem para navegar o presente está correta. Empresas que ainda medem transformação digital por quantidade de ferramentas adotadas, ou que confundem automação com inteligência aplicada ao negócio, já começaram a perder.

O chamado ao "desaprendizado" como competência executiva também é pertinente. Abandonar certezas que funcionaram por décadas é, de fato, um dos movimentos mais difíceis — e mais necessários — que uma liderança pode fazer.

"No século passado não se usava velhos mapas para descobrir novas terras. Na era da Pós-Inovação não usamos mapas, usamos bússolas quânticas."
— Gil Giardelli, 6º Congresso Brasileiro de Internet
Slide de Gil Giardelli: 'Na era da Pós-inovação não usamos mapas, usamos bússolas quânticas'
O slide de Giardelli que sintetizou a palestra: da era dos mapas à era das bússolas quânticas.

A imagem é poderosa. Mas bússolas também precisam de operadores preparados. E é aí que a conversa fica mais complexa.

Onde discordo I: criatividade como "petróleo do século XXI" é uma metáfora sedutora — e incompleta

Giardelli propõe que a criatividade substituiu os dados como o recurso mais valioso do mundo. É uma frase que funciona muito bem em palco. Mas ela omite uma etapa crítica do processo de geração de valor.

Teremos sim uma explosão de ideias criativas. A questão é: quem consegue transformar essas ideias em resultados de negócio concretos? Quem executa, mede, governa e escala?

O mundo da pós-inovação não vai premiar apenas quem tem ideias. Vai premiar quem tem capacidade organizacional para converter ideias em execução.

Nos últimos dez anos, vimos o graveyard (cemitério) de startups criativas exatamente por falta dessa capacidade. A IA não resolve esse problema — ela amplifica tanto o potencial criativo quanto a exposição ao fracasso por falta de estrutura.

O CEO que precisa decidir sobre IA nos próximos 12 meses não está com déficit de criatividade. Está com déficit de contexto, de curadoria e de governança para separar o que gera valor do que gera encantamento temporário.

Onde discordo II: a tese dos "3 empregos por 1" precisa de um ator que falta na conta

A afirmação de que para cada emprego fechado pela automação três novos serão criados é recorrente nos circuitos de inovação. Ela tem amparo em estudos históricos sobre ondas tecnológicas anteriores. Mas aplicá-la ao presente sem contexto é, no mínimo, imprecisa.

A questão não é se os empregos vão surgir. A questão é: para quem? Em que velocidade? Com que suporte? E com qual infraestrutura social de transição?

As ondas anteriores de automação aconteceram em décadas. A atual acontece em ciclos de meses. O tempo de requalificação disponível é radicalmente menor — e há um ator que aparece pouco nessa conta: o governo.

Sem políticas públicas ativas de reskilling, sem redes de proteção social que absorvam o intervalo entre o emprego que some e o emprego que surge, e sem incentivos regulatórios para que empresas priorizem requalificação interna, o otimismo dos "3 empregos" pode ser verdadeiro no agregado — e devastador para populações específicas que ficam para trás.

Sociedade e mercado não resolvem isso sozinhos. Essa é uma afirmação técnica, não ideológica.

A leitura que proponho: Inteligência Conectada como resposta estrutural

O cenário descrito por Giardelli é real, a velocidade da transformação é real, a obsolescência de modelos mentais é real. Onde divergimos é na resposta.

A resposta não é apenas "seja mais criativo" ou "desenvolva uma bússola quântica".

A resposta é construir organizações com capacidade de inteligência aplicada: dados com contexto, liderança com letramento em IA, governança que permite escalar, e cultura que sustenta a transformação no longo prazo.

IA sem contexto é tecnologia. IA com contexto, governança e liderança humana preparada vira inteligência estratégica.

Os três momentos em que organizações precisam de suporte real são exatamente esses: quando não sabem qual deve ser seu próximo passo, quando sabem mas não conseguem executar, e quando executam mas perdem eficiência ou competitividade no caminho.

Nenhum desses momentos é resolvido por criatividade isolada. Todos exigem inteligência conectada — humana e artificial — combinadas com propósito e governança.

A pergunta que fica

Saí do congresso com uma certeza renovada: o debate sobre IA no Brasil está evoluindo. Isso é positivo, mas há uma diferença importante entre inspirar líderes e preparar organizações.

Inspirar é necessário. Preparar é estratégico.

A próxima vantagem competitiva não será usar IA, nem ser criativo na era da pós-inovação. Será a capacidade de governar, aplicar e escalar inteligência — humana e artificial — com direção, contexto e responsabilidade.

O CEO não precisa dominar o código. Precisa dominar as perguntas certas. E a primeira delas é: qual capacidade organizacional estou construindo para que a inteligência, humana e artificial, gere valor de verdade?

Você concorda que criatividade sem execução não gera vantagem competitiva? Como sua organização está construindo essa capacidade?

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Coluna assinada. As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem necessariamente a posição institucional da Abranet — Associação Brasileira de Internet.