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O otimista da IA que pediu para pararmos de pensar no piloto automático

Quando o construtor critica a própria obra, o alerta pesa mais que o de qualquer cético — e a pergunta que sobra é sobre nós, não sobre a máquina.

Dorian Lacerda
Um dos fundadores da Abranet
15 de julho de 2026
O otimista da IA que pediu para pararmos de pensar no piloto automático

Há dois tipos de alerta sobre tecnologia. O do cético que nunca acreditou e agora comemora a confirmação que já esperava. E o do construtor que ergueu a coisa com as próprias mãos e parar para dizer que algo saiu do lugar. O primeiro se ignora com facilidade. O segundo é impossível de descartar.

Mohanbir Sawhney é do segundo tipo. Professor da Kellogg, já ensinou mais de 40.000 executivos em 120 países pelos programas online da escola, se define como um “otimista de IA” e acaba de lançar The Return on AI, livro sobre como transformar a promessa da IA em lucro.

Foi esse mesmo Sawhney que publicou, em 30 de junho de 2026, no seu Substack The Hidden Weave, um texto afirmando que a IA se aproxima rapidamente do seu “pico destrutivo” o momento, na lógica da destruição criativa, em que a demolição do que existe corre à frente do que ainda será construído.

Tenho, confesso, um interesse particular por esse alerta. Quando fiz o programa de IA e transformação digital da Kellogg escola em que Sawhney integra o corpo docente, o que se respirava era otimismo pragmático: a IA como alavanca de valor, desde que bem conduzida.

É justamente por isso que o texto dele agora pesa. Não é o recuo de um cético; é o mesmo otimista pedindo que se adote a IA com consciência, e não no automático.

Cinco camadas, um só argumento

O alerta de Sawhney não é sobre a IA falhar. É sobre ela funcionar bem demais num lugar específico: tirar de nós o trabalho de pensar.

Ele descreve cinco camadas de destruição o colapso do valor do software e dos fossos competitivos que protegiam empresas inteiras; o dano às pessoas que construíam esse software, com o corte dos degraus de entrada da carreira; o custo humano de terceirizar o raciocínio; o dreno crescente de energia e água por trás da infraestrutura de IA; e, no nível mais profundo, a erosão daquilo que nos torna humanos quando a máquina passa a escrever nossas frases e guiar nossas escolhas.

A camada que mais incomoda é a do meio. Nas palavras dele: “pensar é trabalho, e a IA é excelente em tirar trabalho” inclusive o trabalho em que descobrimos o que de fato pensamos. Delegar o rascunho de um argumento é pular exatamente a etapa em que formaríamos juízo próprio sobre o problema.

Não é tecnofobia; é economia cognitiva básica: o músculo que não se usa atrofia.

A contradição que é, na verdade, a mensagem

Vale registrar o contraste. A própria Kellogg segue expandindo seu portfólio executivo de IA só o programa-carro-chefe reuniu mais de 2.500 matrículas em 2025, um dos maiores do gênero entre escolas de negócios. Sawhney não está recuando da IA.

Está pedindo que ela seja adotada com agência, não no piloto automático. A conclusão do próprio autor é de responsabilidade, não de resignação: os perigos são reais, mas a resposta está em nossas mãos.

As ondas passam

Na minha jornada pela transformação digital e pela internet no Brasil, através da ABRANET, aprendi que a cada nova onda tudo se repete porém com outra intensidade, e sempre diferente das anteriores.

Nenhuma chega igual à que veio antes, e é por isso que a experiência serve menos como manual e mais como temperamento: ela ensina a não confundir novidade com ruptura, nem entusiasmo com direção.

Mas uma coisa me parece certa: são ondas, e ondas passam. O que permanece é a inteligência humana. E se há um retorno que importa medir nesta era, talvez não seja apenas o retorno sobre a IA é o retorno sobre o esforço humano que continuamos dispostos a fazer. Porque é dele que nasce o juízo, e é o juízo que atravessa cada onda.

Volto ao corte dos degraus de entrada, porque é o ponto que fala direto a quem pensa em sucessão. Os cargos juniores nunca foram só sobre o que produzem eram os degraus pelos quais as pessoas subiam até o julgamento maduro.

Automatizar as tarefas de entrada levanta uma pergunta incômoda: como alguém chegará ao topo no futuro? Para conselhos e empresas familiares, isso não é filosofia. É planejamento de sucessão.

O que fazer com isso na sua empresa

  • Audite onde a IA está substituindo a decisão e onde está apenas acelerando a execução de uma decisão já pensada. São coisas diferentes, e sua liderança deveria saber distinguir as duas.

  • Proteja deliberadamente os espaços de raciocínio autoral. Comitês, memorandos e discussões estratégicas não deveriam nascer prontos de um prompt.

  • Trate o custo de energia e água da infraestrutura de IA como linha de sustentabilidade, não como externalidade de outra empresa.

Digo isso a partir do que tenho visto: há uma pressa em adotar que nem sempre vem acompanhada da paciência de desenvolver. São coisas distintas. Adotar a ferramenta é rápido; construir a capacidade de decidir bem com ela, não. A IA não criou essa diferença apenas tornou mais fácil confundir uma com a outra.

O alerta de Sawhney não pede que se recue da IA. Pede que se recupere a autoria sobre o próprio pensamento antes que a delegação vire hábito perdido. Nenhuma empresa vai regredir na adoção de IA, e não deveria. Mas toda empresa que trata “pico destrutivo” como retórica de palestra, e não como risco a gerenciar, vai descobrir tarde demais que trocou juízo por velocidade.

A pergunta que fica não é se sua empresa vai continuar usando IA. É se ela ainda saberá pensar sem ela quando precisar. Esta onda também vai passar. O que fica é o que tivermos preservado de nós porque o maior risco para uma liderança não é usar IA, é parar de perceber quando deixou de pensar.

Fonte: Mohan Sawhney, “The Destructions of AI, and how to Rise Above Them”, The Hidden Weave (Substack), 30/06/2026 hiddenweave.com/p/the-destructions-of-ai-and-how-to


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Coluna assinada. As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem necessariamente a posição institucional da Abranet — Associação Brasileira de Internet.