Trinta anos construindo a rede. Agora, construindo o que vem depois.
Por Dorian Lacerda Fundador & Board Member da Abranet · CEO da NEXTCIA · Chairman da INSPAND
Em novembro de 1996, um grupo de empresários se reuniu para criar uma associação que representasse algo que, no Brasil, mal existia: uma indústria de internet. Não havia mercado consolidado, não havia marco regulatório, não havia sequer consenso sobre se aquilo era telecomunicação, informática ou uma terceira coisa ainda sem nome.
O que havia era gente disposta a construir.
Trinta anos depois, a Abranet chega a 2026 representando toda a cadeia econômica da internet brasileira, de provedores regionais a plataformas globais, de meios de pagamento a data centers, de fintechs a edtechs.
Chegamos aqui porque, em cada momento decisivo, houve empresários dispostos a defender uma internet única, livre e aberta às oportunidades. Não fragmentada por interesses setoriais. Não capturada por um único modelo de negócio. Não sufocada por regras desenhadas sem compreensão de como a rede realmente opera.
Essa é a jornada que este espaço inaugura ao olhar para frente.
O que os desbravadores construíram
Vale lembrar o que estava em jogo. Cada expansão de rede no Brasil foi decisão empresarial de risco: capital privado apostando em demandas que ainda não existiam, em regiões que os grandes players consideravam inviáveis, sob regras que mudam no meio do caminho.
O provedor que levou banda larga para o interior da Amazônia ou do sertão nordestino não seguiu plano de governo. Seguiu a leitura de mercado e a disposição de arriscar. E, ao fazer isso, entregou algo que nenhuma política pública tinha conseguido entregar sozinha: capilaridade real.
A Abranet nasceu para dar voz institucional a essas decisões. Para traduzir, a reguladores e legisladores, o que significa operar na internet num país continental. Para explicar que uma norma redigida com base na realidade de uma capital pode inviabilizar centenas de operações no interior, não por má-fé de quem a redige, mas por distância entre a mesa onde se decide e o campo onde se opera.
Esse trabalho raramente vira manchete. Mas foi ele que ajudou a manter a rede brasileira funcionando, competitiva e o que é notável no contexto internacional, razoavelmente livre.
A pandemia: quando a rede segurou o país
Se houve um teste de estresse dessa construção, foi em 2020.
Da noite para o dia, milhões de brasileiros passaram a depender da conexão domiciliar para trabalhar, estudar, consultar médicos, receber auxílio emergencial e, não menos importante, ver o rosto de quem amavam. O tráfego explodiu. A rede aguentou.
Não aguentou por sorte. Aguentou porque havia infraestrutura construída ao longo de duas décadas por empresários que investiram lucro em capacidade. Porque os provedores mantiveram equipes em campo quando ninguém sabia o que era seguro.
Porque houve coordenação rápida entre setor privado, Anatel e CGI.br em decisões que normalmente levariam meses e porque muitos provedores foram além do acordado, atendendo escolas, unidades de saúde e famílias em situação crítica sem contrato formal e sem compensação.
Naquele momento, o provedor de internet virou serviço essencial de fato. E o setor respondeu com uma naturalidade que merece registro histórico, não como marketing, mas como fato.
Quando o país precisou ficar em casa, foi a rede construída pela iniciativa privada, em articulação com o poder público, que tornou "ficar em casa" viável.
Isso precisa ser dito com clareza, porque a memória pública é curta. Reconhecer esse papel não é pedir tratamento especial. É pedir que o debate sobre o futuro da rede comece do lugar certo: o de quem já demonstrou, sob pressão máxima, que entrega.
Da conectividade à economia digital
O que veio depois foi ainda mais profundo. A conectividade deixou de ser fim e virou base. Sobre ela, construiu-se uma economia digital que hoje move pagamentos, educação, saúde, crédito, varejo, logística e serviços públicos.
O Pix é o exemplo mais visível, mas está longe de ser o único. Milhões de brasileiros entraram no sistema financeiro por meio de um aplicativo. Empresas inteiras foram redesenhadas em torno de dados e automação. Trabalhadores mudaram de profissão via plataformas de educação corporativa que não existiam há dez anos.
Essa transformação não é abstrata. Nas plataformas de educação digital com que trabalho, mais de 6 milhões de pessoas passaram por processos de requalificação profissional. O padrão que emerge é consistente: tecnologia sozinha não transforma organização nenhuma.
Quem transforma são pessoas com capacidade de usá-la. E capacidade se constrói com educação contínua, no fluxo do trabalho, não em treinamento pontual.
É aqui que as três grandes correntes se encontram: conectividade, educação digital e inteligência artificial. Elas convergem, e todas passam pela internet. Não há transformação digital sem rede, sem plataforma, sem serviço digital.
A Abranet está no centro dessa convergência. Falta apenas dizê-lo em voz alta.
Por que Abranet Futures, e por que agora
Nossa comunicação institucional é forte no diagnóstico do presente: acompanhamos a legislação semanalmente, analisamos decretos, respondemos a consultas públicas, produzimos manifestações técnicas de alta qualidade. É um trabalho essencial e bem-feito.
Mas é reativo por natureza. Responde à agenda de outros.
Abranet Futures existe para acrescentar uma camada que hoje falta: a pergunta sobre para onde a internet brasileira deveria ir, feita por quem a construiu. Não substitui o trabalho regulatório; ele segue sendo o núcleo da associação. Amplía o horizonte.
Há três razões para fazer isso agora.
Primeira: a janela da IA. A inteligência artificial agêntica está saindo do laboratório para a operação. Vai reorganizar mercados de trabalho, cadeias produtivas e o próprio funcionamento do Estado. A regulação de IA está sendo desenhada no Brasil neste momento, e o setor produtivo precisa estar na sala com posição construída, não apenas reagindo ao texto pronto.
Segunda: a educação virou infraestrutura. Discute-se muito soberania digital em termos de data center e cabo submarino. Pouco se discute que soberania também é ter gente capaz de operar, auditar e criar essas tecnologias. País que importa tecnologia e não forma quem a entenda não constrói autonomia, constrói dependência.
Terceira: o timing institucional. A Abranet chega aos 30 anos com legitimidade consolidada, acesso a reguladores e uma base associativa que se diversifica. É o momento de converter capital institucional em influência de agenda.
Como funcionará
Este espaço publicará análises estratégicas a cada duas semanas, com três compromissos.
Observação, não especulação. Não faremos futurologia. Escreveremos sobre padrões já observáveis em dados reais, em operações reais, em decisões reais de empresas. "Vejo isso acontecendo" é uma afirmação diferente de "isso vai acontecer".
Implicação prática. Cada texto terminará no mesmo lugar: e daí? O que governo, mercado e sociedade poderiam fazer hoje diante do que se observa.
Perspectiva de quem opera. Escreveremos a partir de quem constrói, investe, contrata, arrisca capital. Essa perspectiva é frequentemente ausente no debate sobre o futuro digital dominado pela academia, pela consultoria e pela formulação de política. Ela merece assento à mesa. O que não significa monopólio da mesa: as outras perspectivas são bem-vindas aqui, inclusive quando divergem.
Alguns temas já estão no radar: por que a próxima onda de transformação passa por educação corporativa e não por tecnologia; o que a chegada dos agentes de IA significa para regulação e mercado de trabalho; soberania digital como questão de capacitação, não apenas de infraestrutura; o novo contrato entre organizações e pessoas.
Este espaço não é de uma voz só
Aqui está o ponto mais importante deste texto inaugural, e o motivo de ele se chamar "zero" e não "um": o que vem depois não deveria ter um único autor.
A força da Abranet nunca esteve numa voz. Está nos comitês técnicos que produzem inteligência regulatória de altíssima qualidade trabalho que hoje circula entre especialistas e praticamente não chega ao debate público. Está nos associados que operam a rede todos os dias e enxergam padrões antes de qualquer analista. Está numa base que vai do provedor regional à multinacional.
Abranet Futures se propõe a ser a vitrine dessa inteligência distribuída. Na prática, isso significa três frentes:
Artigos de colunistas convidados. Executivos, técnicos e lideranças do ecossistema com algo a dizer sobre para onde vamos. Não pedimos alinhamento editorial pedimos consistência com o que se observa e disposição de sustentar o argumento.
Sínteses da produção dos comitês. O que o Comitê de Meios de Pagamento entende sobre o futuro do sistema financeiro digital, o que o Jurídico enxerga na regulação que se desenha traduzido para linguagem de tomador de decisão.
Contribuições abertas. Se você lidera uma operação e vê algo que o debate público ignora, se sua empresa está atravessando uma transformação que ninguém descreveu direito, se você discorda frontalmente do que leu aqui: este espaço quer seu texto.
Buscaremos ativamente as vozes menos ouvidas provedores regionais, startups, empresas fora do eixo Rio–São Paulo, mulheres em posições de liderança técnica. A representatividade da Abranet é real em escopo. Precisa ser igualmente real em voz.
E vale dizer o que talvez não precise ser dito, mas dito fica mais claro: discordância é bem-vinda. Um espaço de pensamento estratégico que só publica concordância não é espaço de pensamento é boletim.
Como participar: E-mail : futures@abranetfutures.com
Agradecimento
Este projeto nasce com o apoio de Gil Torquato, presidente da Abranet. Numa associação que poderia se acomodar na tranquilidade de três décadas de bons serviços prestados, abrir espaço para um projeto que propõe reposicionamento é decisão de liderança que merece registro. Meu agradecimento a ele, à Diretoria e ao Conselho Consultivo.
Olhar o presente para construir o futuro
Encerro com a ideia que dá origem a este espaço.
O futuro não se prevê. O futuro se constrói, e se constrói com decisões tomadas hoje, com base no que já é visível para quem está prestando atenção.
Os empresários que fundaram a Abranet em 1996 não previram o Pix, o streaming, a IA generativa. Fizeram algo mais útil: leram corretamente o presente e construíram infraestrutura para um futuro que não conseguiam descrever.
É exatamente isso que nos cabe agora. Não adivinhar 2032. Ler 2026 com honestidade e construir para o que se anuncia.
Trinta anos atrás, um grupo de empreendedores decidiu que o Brasil precisava de uma internet única, livre e aberta. Construíram.
Agora precisamos decidir o que construímos em cima dela. E essa decisão é grande demais para caber numa voz só.
Vamos conversar.
Dorian Lacerda é um dos fundadores e Board Member da Abranet, CEO da NEXTCIA e Chairman da INSPAND.
Abranet Futures aceita propostas de pauta, artigos de colunistas convidados e contribuições de associados.
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